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Filmes de 2005

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2006: O MELHOR (Parte II)

posted Saturday, 30 December 2006

Dificilmente se poderá achar um elenco mais talentoso, coeso e diversificado do que Martin Scorsese uniu para The Departed. Da dicotomia desesperante de Leonardo DiCaprio ao cinismo sofisticado de Matt Damon, passando pela exuberância maliciosa de Jack Nicholson, o encanto perturbador de Vera Farmiga e a escatologia desbocada de Mark Whalberg – sem falar de Martin Sheen, Alec Baldwin e Ray Winstone – é um conjunto de actores perfeito e que levam The Departed a um patamar superior de humanidade e realismo. Mas depois chega também Babel. Isento de “protagonistas” é um filme que resulta na plenitude e realidade das interpretações que o pontuam. Se é de ressalvar as presenças de Adriana Bazarra e a revelação estonteante de Rinko Kikuchi, há que também não esquecer a mais brilhante e comovida interpretação de Brad Pitt e as aparições não menos relevantes de Cate Blanchett e Gael Garcia Bernal, entre muitos outros.

Outros elencos: A Prairie Home Companion, Nobody Knows,
Munich e Good Night and Good Luck



Emmanuel Lubezki, também responsável pela direcção de fotografia de Children of Men, é um dos novos valores da área. Aliado à perfeição do detalhe e primor cinematográfico de Terrence Malick, Lubezki em The New World capta a luz de uma forma assombrosa, sem alguma vez recorrer à iluminação artificial e captando a realidade forma e imaginária de cada personagem e de cada local. Vemos uma perda de cor – uma mudança da vivacidade do verde para cores mais soturnas como o cinzento – à medida que Pocahontas perde a inocência e é corrompida pelo mundo moderno.

Outras fotografias: Brokeback Mountain e Babel, Miami Vice, Marie Antoinette e Munich



A presença da actriz chinesa nunca passou despercebida mas em Miami Vice atinge uma plenitude inesperada na forma como constrói, quase sozinha, uma narrativa secundária que acaba por dominar todas as sensações do filme. A união com Colin Farrell é tórrida, frágil e perigosa, e no olhar de Gong Li mora a percepção da delicadeza das emoções que surgem tão ferozmente e que acabam por se consumir nelas mesmas. Na sua arrebatadora e desnorteante presença vislumbramos também um espírito indomável que atribui à realidade visceral de Miami Vice uma beleza quase poética.

Outras actrizes: Scarlett Johansson (Match Point), Rinko Kikuchi (Babel), Adriana Bazarra (Babel), Maria Bello (A History of Violence), Bryce Dallas Howard ( Lady in the Water) e Vera Farmiga (The Departed)




Atribuir a palavra de memorável à interpretação de Jack Nicholson em The Departed é quase redundante. A união com Scorsese é perfeita em todos os sentidos e parece ter existido desde sempre, mesmo quando é a primeira vez que se encontram num filme. As duas realidades fundem-se nesta transfiguração do típico senhor do crime, que atinge proporções maiores que a própria vida. A sua transformação num avatar demoníaco e quase desumano é épica e relembra os velhos monstros da mitologia grega. Monstros que se alimentam de tudo aquilo que os rodeia, sugando a alma de todos para seguir em frente e sentir o poder aumentar infindavelmente.


Outros actores: Brad Pitt (
Babel), William Hurt (A History of Violence), Jason Schwartzman (Marie Antoinette) e Daniel Craig (Munich)




Não é fácil interpretar uma rainha. Quase que poderia me estar a referir a Helen Mirren que por pouco não  bate a “eleita” para melhor actriz principal, Kirsten Dunst, apelidada pela crítica como Rainha Suicida (em alusão ao primeiro filme de Sofia Coppola). A realidade é que o desencanto adolescente e a incapacidade de encontro consigo mesma fazem de Kirsten Dunst um dos grandes valores do cinema de  Coppola e da sua temática enquanto autora: a aflição silenciosa de uma idade adulta prematura e inesperada. Dunst é simultaneamente deslumbrante, fútil, penetrante e sempre comovente num turbilhão de emoções que teimam em sair, numa subtileza mais evidente que qualquer exagero interpretativo.

Outras actrizes: Helen Mirren (The Queen), Q’Orianka Quilcher (The New World), Penelope Cruz (Volver) e Felicity Huffman (Transamerica)




Muito mais que uma distinção de coragem, este ex-equo é uma afirmação de uma forma moderna de actuação em melodrama, mais sóbria e térrea mas não menos emocionalmente devastadora. Nesta história de amor improvável e condenada, Ledger e Gyllenhaal fazem o impossível e apagam qualquer percepção de um romance menos convencional e no final nada mais resta que a perdição da condição de amar e toda a dor que esta acarreta. Heath Ledger é perfeito no papel do amante reprimido, incapaz de se aceitar a si mesmo e aos seus sentimentos. Jake Gyllenhaal é o oposto e tenta tudo para alcançar a felicidade, assumindo plenamente a sua identidade e acarretando as fatídicas consequências. Trágicos e autênticos.

Outros actores: Leonardo DiCaprio (The Departed), Eric Bana (Munich), Romain Duris e Louis Garrel (Dans Paris), Paul Giammati (Lady in the Water) e David Strathairn (Good Night and Good Luck)



Numa obra em que as palavras podem constituir interferências na comunicação, o argumento do fiel colaborador de Iñarritu, Guillermo Arriaga é nada menos que um prodígio cinematográfico e que acaba por conduzir a magnifica realização do realizador mexicano. Nas histórias que se fundem somos confrontados com tudo aquilo que as afasta mas sobretudo no que as une. Em todas as personagens que moram em Babel, vemos uma sintonia silenciosa, disfarçada pelas diferentes culturas e universos a que pertencem.

Outros argumentos: The Departed, Lady in the Water, Nobody Knows e Match Point




Há quem veja um realizador como um contador de histórias. M. Night Shyamalan é um dos exemplos mais perfeitos de tal afirmação. Em Lady in the Water leva a sua arte a um patamar superior, e não só cria uma mitologia própria nas suas personagens como também volta a singrar na realização, iluminada e encantada, cada vez mais inspirada e única. 2006 teve muitos e grandes momentos de cinema e Shyamalan proporcionou uma boa parte deles, num filme pouco aclamado mas muito amado e que decerto ainda fará correr muita tinta.

Outros realizadores: David Cronenberg, Ang Lee, Sofia Coppola, Michael Mann e Martin Scorsese


 




1. José Couto left...
Tuesday, 10 April 2007 8:15 pm

Estou 100% de acordo com a escolha do realizador do ano: polémica, obviamente, face às inúmeras críticas negativas a "Lady in the water", mas absolutamente justa, em minha opinião. Para ser sincero, estou-me nas tintas para os críticos (sejam eles jornalistas ou espectadores); o realmente me interessa é que Shyamalan continue a privilegiar-me com "fracassos" como "The Village" e "Lady in the water"... Eu, cá por mim, deixo as "obras da prima" para os críticos... Cumprimentos cinéfilos


2. Nuno Gonçalves left...
Wednesday, 11 April 2007 11:58 pm

Olá José. Obrigado pelos comentários. A escolha do Shyamalan foi uma díficil porque foi um ano com muito bons trabalhos de realização. Escolhi esse porque também me canso um bocado das "críticas" dos "críticos" que tendem a rejeitar tudo aquilo que não cai nos seus padrões de experiência filimica quando para mim o cinema é exactamente o oposto. Abraço