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Filmes de 2005

LastFM

2006: TOP10

posted Monday, 1 January 2007

E finalmente aqui fica a lista dos dez melhores filmes de 2006 na minha perspectiva. Foi um ano surpreendente e pleno de obras-primas. Foi difícil deixar de lado alguns dos filmes, que entretanto menciono no final do texto. Aproveito também para desejar um bom ano de 2007 a todos.



Munich de Steven Spielberg

Um poderosíssimo ensaio sobre o conflito israelo-palestiniano e sobre as vidas que se perderam ou deterioraram nas consequências do massacre a atletas israelitas no Jogos Olímpicos de Munique em 1972. Spielberg não tenta nunca oferecer uma única perspectiva ou tomar um partido na delicada situação e deixa que sejam as personagens e o que as move a dominar o filme. Uma tenebrosa viagem a um mundo de trevas que acabam por consumir o protagonista, que começa por fazer aquilo que acha certo e justo e no final a culpa acaba por condená-lo impiedosamente. Uma obra severa e actual. 



Miami Vice de Michael Mann

O melhor filme de acção desde... Heat? Esta obra de Michael Mann acabou por ser algo menosprezada, talvez vitima da série que lhe deu inspiração que cujas similaridades acabam no nome das personagens principais. Um policial frenético e realista com uma abordagem visual que só Mann é capaz de conjurar: na forma como filma a noite da cidade e como capta a luz única que dela emana, recorrendo à exactidão do formato digital. Surpreendentemente, e apesar de algumas das melhores cenas de acção que o cinema moderno já viu, o cerne do filme acaba por ser o romance acidental entre um dos agentes policiais, Colin Farrell, e a assistente de uma rede criminal na qual eles se infiltraram, a cada vez mais resplandecente e desarmante Gong Li.



The New World de Terrence Malick

Terrence Malick entrega-nos mais um extraordinário filme nesta reinvenção da história de Pocahontas e do descobrimento da colónia americana da Virginia. Mais do que um choque de culturas, The New World é uma viagem à inocência sonegada da protagonista que lentamente vai perdendo a ligação ao seu povo e à Natureza que a sustentavam enquanto ser humano. Esta comovente progressão é captada com mestria por Malick e pelo director de fotografia e na procura de redenção de Kilcher entramos em contacto com a verdadeira essência do vínculo que possuía e da forma como foi tão dolorosamente amputado, não só pelas condições impostas pelos colonos mas sobretudo pela maneira como se entregou a um amor que a consumiu por inteiro.



Marie Antoinette de Sofia Coppola

A honestidade pop de Sofia Coppola, depois de Tokyo, encontrou novo lar em Versailles e na história de uma das mais infames figuras da realeza mundial. Conta-se que Marie Antoinette levou um pais à falência e apressou uma revolução, mas em Kirsten Dunst vemos alguém que na inaptidão de se integrar no meio fútil em que foi obrigada a viver, o abraça numa “não-rebelião” que acaba por sufocá-la. Um retrato na primeira pessoa de um mundo à parte e das suas influências num ser humano em busca do seu lugar, interrompido pela condição artificial da “tradição”. Exuberância e tragédia unem-se numa revolucionária redefinição das barreiras que um género, neste caso o drama de época, deve (ou não) manter. 



Nobody Knows de Kore-eda Hirokazu

Kore-eda Hirokazu assina o argumento e a realização deste trágico conto moderno de uma família constituída apenas por crianças, abandonadas pela mãe numa casa que apenas visita anualmente. O desencanto de Nobody Knows reside não só nos actores, que são o coração do filme, mas também no argumento tocante do realizador Kore-eda Hirakazu. Minimalista e envolvente, é uma história que só poderia ser contada em cinema, em que as palavras não suficientes para reter as emoções envolvidas e só as imagens transcritas são capazes de descrever o drama destas crianças que não podem ser crianças, que vivem no abandono... e no calor dos irmãos encontram coragem para sobreviver.



Lady in the Water de M. Night Shyamalan

Um conto de fadas moderno revolvendo no espaço de um condomínio fechado e que acaba por ser envolvido pelo mistério de uma criatura estranha que surge em busca de ajuda. M. Night Shyamalan assina aqui o seu mais fulgurante e arrebatador filme e talvez também o mais incompreendido. Contudo a beleza da história e acima de tudo da realização inspirada do autor deixam transparecer um mundo que poucas vezes emerge em cinema. Um projecto pessoal que afirma mais do que qualquer outro filme da sua autoria a sua identidade enquanto cineasta e a direcção em que pretende enveredar. Um pequeno grande milagre de cinema.



The Departed de Martin Scorsese

Dizer que The Departed é um dos melhores policiais de sempre é redundante. Nesta obra prima do mestre do cinema americano Martin Scorsese vemos o realizador enveredar por territórios desconhecidos no confronto entre as forças policiais e as redes criminosas, sem perspectivas unilaterais das mesmas. No processo constrói um drama poderosíssimo envolvendo dois homens em tudo semelhantes menos na vida que escolheram. As consequências do condicionamento dos diferentes meios tornam-se ainda mais evidentes quando entra na equação a presença feminina (e perturbadora) de alguém que, inconscientemente, os une pela primeira vez. Recheado de interpretações memoráveis – de ressalvar o brilhantismo de DiCaprio -  é um filme memorável e que estará sem qualquer dúvida na lista dos melhores filmes de Scorsese. E isto é dizer tudo.



Brokeback Mountain de Ang Lee

Estreado este ano em Portugal, fez furor na época de atribuição de prémios, tendo ganho tudo o que havia para ganhar exceptuando o Óscar para Melhor Filme, uma derrota não do filme mas da própria Academia, cada vez mais relevadora de incapacidade ou medo de progresso. Esta história de amor trágica é material de cinema clássico e um melodrama poderosíssimo e ousado na forma como desmistifica a homossexualidade do casal central e deixa que se tornem simplesmente em dois humanos condenados a um amor impossibilitado de se concretizar na sua plenitude. As interpretações já foram louvadas mas é altura de afirmar a extrema importância da sensibilidade de Ang Lee para este projecto, um autor capaz de tornar genuínas as histórias mais invulgares.



Babel de Alejandro González Iñárritu

Chegou no limiar da recta final do ano de 2006 e provou-se arrebatador. Depois da excelência de Amores Perros e 21 Grams, Alejando Gonzalez Iñarritu entrega-nos a sua obra-prima. Uma história feita de muitas histórias, separadas geograficamente e pela barreira da linguagem. No decorrer de um acidente num país árabe, várias são as vivências e costumes que se fundem nesta complexa análise da individualidade do Homem enquanto ser colectivo e nas dificuldades, muitas vezes artificiais, de comunicação entre as diversas culturas. Não é por acaso que toda a chave do filme reside na personagem mais distante do atentado que tomou lugar, uma adolescente surda-muda japonesa. A reflexão a que nos obriga é tudo menos fugaz e, depois da emotividade que emerge da sua verdade, a mensagem “codificada” de Babel não se dissipa. Uma obra para o futuro.



A History of Violence de David Cronenberg

O melhor de filme de um ano bem apetrechado de obras superiores. David Cronenberg consegue em 90 minutos invocar todo o espírito da narrativa cinematográfica e fazer um dos melhores thrillers de sempre. Na crise existencial de Mortensen existe uma vontade de mudança e de valorizar a família que construiu numa mentira, o que se torna difícil quando a sua vida passada volta para o assombrar. É não só um tratado sobre a violência (justificada?) e as suas várias ramificações mas no seu cerne uma obra sobre a procura de uma identidade, temática que dominou os grandes filmes do ano incluindo também Brokeback Mountain, The Departed, Marie Antoinette, Babel, The New World, Munich e até Miami Vice. Com toda uma série de “generalismos” a subjugar a mentalidade do público de cinema, há que apreciar a unicidade do ser humano, mesmo nos seus aspectos mais negros e conturbados, nestas inesquecíveis obras inesquecíveis.




Outros filmes: Good Night and Good Luck, Dans Paris, Volver, Caché, Match Point e Le Temps Qui Reste










1. Laura left...
Tuesday, 2 January 2007 6:10 pm

Eh pá... pronto, tá bem, sei lá! Ainda não vi o "Bâbelllll". Aliás, ao todo são 4 os que não vi. Juro que vou tomar em altíssima consideração este top para os meus próximos visionamentos. E o "Volver"? Foi um dos que tiveste de deixar de fora ou nem por isso? 100 % agreement quanto ao 1º lugar. O "The New World" deixou-me extremamente entediada (dizem as más línguas que não captei a essência da coisa... a malta pode não apreciar algo sem ter de ser realmente estúpido! Ou não?).


2. H (Play It Again) left...
Wednesday, 3 January 2007 10:18 pm :: http://playthatmovieagain.blogspot.com

Escolhas interessantes e sempre bem apresentadas. Muitos deles foram escolhas minhas também... A History of Violence foi um filme que gostei sobretudo pela ideia e por questões que levanta e não tanto pela concretização...


3. revista left...
Friday, 5 January 2007 4:35 am

Agora on-line em formato blog a Revista F.I.M. - Festivais de Imagem em Movimento, sobre Cinema e Festivais de Cinema em http://revistafim.blogspot.com/


4. Rute Silva left...
Tuesday, 6 March 2007 7:49 pm

Em geral boa selecção! Claro isto é só a minha opinião. 2006 foi de facto um ano riquíssimo em termos cinematográficos. Concordo com todos, menos o Novo Mundo e Marie Antoinette infelizmente não vi e não cabem na minha selecção para comparação. E peço desculpas para quem adora tanto o realizador, como o filme, mas Lady in the Water... O que até poderia ser um filme fantástico tornou-se tão mau que vi várias pessoas a abandonarem a sala, fora os maus comentários de toda a parte, cujo filme foi alvo. Mas gostos é como clubes de futebol, não se discute.

Continua com o optimo trabalho que tens feito até aqui, e já agora parabéns... Grande nome para o blog. Grande filme, realizador e actriz (Naomi Watts - simplesmente fantástica).


5. Nuno Gonçalves left...
Friday, 9 March 2007 8:39 pm :: http://mulholland-drive.blog-city.com/

Obrigado pelo comentário Rute. O Shyamalan será cada vez mais um autor que acabará por dividir radicalmente as opiniões. Talvez por isso tenha até o escolhido para realizador do ano, além de que acho realmente o filme um prodigio do cinema contemporâneo.

Quanto ao nome do blog... é um filme que nunca me cansarei de ver. E acredita que já o vi vezes suficientes para isso acontecer :)


6. José Couto left...
Tuesday, 10 April 2007 7:55 pm

Parabéns, quer pelas escolhas, quer (acima de tudo) pelo óptimo blog! Subscrevo na íntegra a lista - alteraria apenas a posição de alguns dos filmes, colocando, por exemplo, em 1º lugar o "Lady in the water", que considero sublime. Relativamente ao Top 10 de 2005 (e porque só agora tomei conhecimento do teu blog), apenas lamento a ausência do "House of flying daggers", de Zhang Yimou, uma obra (em minha opinião) ainda mais superlativa que o anterior "Hero". Cumprimentos cinéfilos