Vá para longe aqui perto
98 Octanas relata a história de um homem e uma mulher que se conhecem numa estação de serviço e enveredam numa viagem pelo interior português, sem rumo definido a inicio e ambos fugindo do passado. Com realização de Fernando Lopes, autor d’O Delfim, tinha algum potencial especialmente porque é um tipo de história que poucas vezes aparece no cinema português, um road-movie. Mas infelizmente e muito graças a um argumento quase extraterrestre em que os discursos são tão ou mais falsos que as personagens voláteis que o preenchem, 98 Octanas não é nada mais que um conjunto de acontecimentos aleatórios e cenas inconsequentes - algumas bem filmadas, outras simplesmente incoerentes – que parecem apenas querer reforçar a ideia que o cinema português é apenas uma amálgama de emoções que ninguém sente, uma série de palavras que ninguém diz e uma mão cheia de pessoas que ninguém conhece, o que não é de todo verdade como se pôde comprovar nos anos anteriores com obras magnificas como Noite Escura e Alice. O melhor acaba mesmo por ser a delicada e bucólica partitura de Bernardo Sassetti, que já tinha musicado o belo filme de Marco Martins e aqui dá ao filme os únicos instantes de proximidade a algo natural. No entanto este filme de Fernando Lopes, em lugar de familiar, não podia ser mais alienígena e estranho. Numa clara tentativa de homenagem a Professione: Reporter de Antonioni – curiosamente agora em reposição – 98 Octanas tenta descrever a infindável busca de identidade do ser humano, mas tudo acaba por se resumir a uma incomodativa sensação de pretensiosismo desprovido de qualquer vestígio de Humanidade. 