
Rádio Nostalgia
A meados da década de 70 um tipo de linguagem emergiu no cinema norte-americano, numa época em que algumas das mais revolucionárias e relevantes obras da história da 7ªarte dominavam os escaparates. O autor chamava-se Robert Altman, o filme Nashville e a influência da sua obra, nomeadamente da obra máxima do realizador – o estonteante Short Cuts, viria a ter seguidores tão nobres e únicos como, por exemplo, Paul Thomas Anderson. Este último chegou a assistir Altman, quando se pensava que o seu estado de saúde se estava a deteriorar rapidamente, no seu último filme, A Prairie Home Companion. Directamente inspirado num mítico programa de rádio sedeado num velho teatro no estado do Minnesota, uma peculiar miscelânea de música tradicional e variedades, agora condenado a ser cancelado com o intuito de dar lugar a um bem mais rentável parque de estacionamento. 
Altman retoma aqui o dialecto cinematográfico que o tornou num entidade única em Hollywood, com a abordagem mundana de conversas de bastidores quase unicamente assentes no improviso, tudo envolto numa excelência descontraída de realização que só um mestre consegue alcançar. Os actores e as suas deleitáveis personagens são muito mais que meras figuras de estilo e aqui assumem um papel importante no modelo dinâmico deste microcosmos cultural americano e serão os primeiros a apontar a liberdade de interpretação cedida por Altman durante as filmagens – muitas vezes o realizador chega a deixar a câmara a rolar para gravar momentos únicos que de outra forma não seriam captados. É absolutamente fascinante ver este elenco debitar histórias caricatas provenientes de uma convivência de dezenas e dezenas de anos a um ritmo também ele muito particular. Praticamente impossível destacar um ou dois actores no cerne de um elenco tão virtuoso e bem “oleado”, do duo ordinário de cowboys de Woody Harrelson e John C.Reilly, ao atabalhoado detective noir de Kevin Kline passando pelas brilhantes e arrebatadoras Meryl Streep e Lily Tomlin, cuja interacção proporciona um prazer quase infindável. Bem presente e demarcada está também a veia humorística de Altman aqui aliada à própria inerente comicidade do host do programa de rádio, Garrison Keillor, que se retrata a si mesmo no filme. Mas acima de tudo existe um sentimento de nostalgia abrangente, saudade de algo que nunca conhecemos e a uma distância cultural considerável. Contudo existe essa forte e reconfortante sensação de um passado que não nos abandonou. E basta recordá-lo para o mesmo se manter bem vivo.

