
Uma estreia auspiciosa na obra de Yasujiro Ozu ontem na Cinemateca com Banshun, a história de um homem que desde a morte da sua esposa encontra reconfortante companhia na sua filha, agora em idade de casar. Mas ela receia deixar o pai para trás e acima de tudo a felicidade com ele encontrada em prol de um novo rumo. Neste filme o tema nuclear é o de toda a obra de Ozu: a família. E aqui o retrato de pai e filha é feito com singular nostalgia mesmo antes do saudoso equilíbrio emocional, sublimado ao longo dos anos, seja ameaçado. O final é de uma contenção arrebatadora, um culminar de sentimentos ambivalentes em que ambos se resignam ao necessário e, em especial o pai, deixa que o seu coração seja despedaçado e entrega-se à solidão do cada vez mais inevitável envelhecimento para conseguir vislumbrar a felicidade da sua filha noutro lugar. A simplicidade do imenso drama humano é enquadrada em momentos reflectores da cultura japonesa ao mesmo tempo que universaliza as emoções abordadas, amarguradas e agridoces, de quem não almejava abandonar o conforto do familiar e aventurar-se num recomeço.
Um filme lindíssimo. O meu Ozu favorito.