1959. Kansas. Uma família de fazendeiros prepara-se para mais uma noite silenciosa nos vastos campos sulistas. No dia seguinte uma amiga de escola encontra os quatro corpos dos Clutter, brutalmente alvejados nas suas camas. É esta desumanidade que capta a atenção do excêntrico e cosmopolita Truman Capote, célebre escritor e uma celebridade ele mesmo, responsável por best-sellers como Breakfast at Tiffany’s e regular colaborador da consagrada revista The New Yorker. Com Nelle Harper Lee, uma amiga de infância que mais tarde viria ela própria a tornar-se uma das mais importantes romancistas norte-americanas com To Kill a Mockingbird, viaja ao Kansas no intuito de investigar este hediondo crime, que mais tarde descobre-se foi perpetrado por dois forasteiros de nome Dick Hickock e Perry Smith. Depois de vários anos passados e muitos recursos em tribunal ambos são executados na forca. 
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RottenTomatoes: 91% (COTC:100%) ; IMDB: 8.1/10
A Sangue Frio
"Ever since I was a child, folks have thought they had me pegged, because of the way I am, the way I talk. And they're always wrong"
Capote, ao contrário do que se possa pensar, não é tanto um filme autobiográfico mas um olhar sinuoso ao processo de criação. O cerne do filme é a relação que Capote constrói com o caso, mais propriamente com um dos assassinos, Perry Smith, que lhe serviu de maior inspiração para o seu aclamado e popular ‘livro não-ficcional da década’ In Cold Blood. Mas a abordagem feita por Bennett Miller é de uma peculiaridade incisiva e extrema na forma como tão gelidamente reporta um ambiente sinuoso e sombrio, em que toda a narrativa do filme está imersa. Existe um certo lirismo doentio e assombroso na forma como filma as paisagens que testemunharam os acontecimentos e as próprias personagens que habitam este mundo tão longínquo mas ao mesmo tempo tão assustadoramente próximo e familiar.
A própria recriação de Truman Capote é ela própria muito áspera e paradoxal, ainda que recheada dos maneirismos que caracterizavam o autor. Uma tremenda e memorável interpretação de Phillip Seymour Hoffman, cujo brilhantismo e talento já reconhecemos há quase dez anos desde Boogie Nights e que no entanto nunca viu o seu trabalho, magnifico em Magnolia, The Talented Mr.Ripley, Punch Drunk Love e Almost Famous, reconhecido até agora, altura em que a chuva de prémios parece ladear uma inevitável vitória na entrega dos prémios da Academia em Março. E se a composição física é notável, muito mais impressionante é a capacidade de capturar a essência dicotómica de Capote, contrastada pelo carácter justo e autêntico de Catherine Keener, outra magnífica e excelsa actriz do cinema independente. Truman Capote é alguém que de tão sufocado pelo seu imenso ego, nunca se parece interessar pelas pessoas que o rodeiam mas o que essas mesmas pessoas podem fazer para e por ele. E é nesta inocente egolatria que vemos Hoffman mergulhar num cada vez mais profundo fosso de desconcertação emocional e moral, do qual Capote nunca viria a ressurgir.
A assumida austeridade que pontua Capote vai tornando os valores mais sagrados do ser humano enquanto ser civilizado cada vez mais transparentes e virtuais, deixando que a verdadeira natureza da “besta” vá tomando forma. E se o desgaste intrínseco é mais surpreendente se tivermos em conta que se trata de uma estreia de Bennett Miller nas lides cinematográficas - que na sua peculiar e soturna sensibilidade se torna na verdadeira e maior revelação do filme, o efeito que provoca é ainda mais devastador e insondável, de uma crueza impressionante e impressionável. Revela algo muito atípico neste ultimo e sóbrio grupo de nomeados ao Óscar, exceptuando o semi-medíocre Crash, todos eles caracterizados por uma desolação acutilante da alma humana.


Que transformação deste senhor...o óscar está no papo e bem merecido :D
Hoffman está... nem tenho palavras. Mas o filme em si não lhe fica nada
atrás.