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RottenTomatoes: 83% (COTC:91%) ; IMDB: 7.4/10
Doce elegia
"Can a heart still break after it's stopped beating? "
O Natal chega e com ele uma vaga de consumismo e frenesim que nada tem a ver com a época. Quantidades astronómicas de dinheiro são gastas em decorações extemporâneas e presentes fugazes e hoje em dia apenas as crianças conseguem viver um pouco aquele que é o verdadeiro espirito natalício, perdido mas não derrotado. Ele existe em Tim Burton que volta a nós este ano na altura mais apropriada. É que apesar de Corpse Bride, ao contrário de The Nightmare Before Christmas, não albergar qualquer referência à data, contém na sua narrativa, como em tantas outras do autor, um toque indecifrável de exaltação natalícia reminescente de contos como The Grinch Who Stole Christmas ou A Christmas Carol.
Mas em Corpse Bride o protagonismo pertence a um jovem ansioso de nome Victor Van Dort que está a ser forçado pelos seus pais, novos-ricos e ansiosos por frequentar círculos mais prestigiantes, a casar com a doce Victoria da família Everglot, detentora de um nome respeitado mas sem um tostão sequer para lhe fazer justiça. Esta união é ameaçada quando depois de um ensaio falhado, Victor corre para os bosques que rodeiam a vila e inadvertidamente acaba por desposar uma noiva já falecida, que durante anos e anos esperou que o seu verdadeiro amor a viesse salvar.
As comparações com The Nightmare Before Christmas são tão inevitáveis quanto injustas, já que esta nova fábula de Burton é outro género de filme, mais centrado na tragicidade inerente à personagem de Emily, a noiva cadáver. Nela, com voz de Helena Bonham Carter, reside a verdadeira essência trágica e dramática do filme, um ser que continua a ansiar por um amor que a falhou. Num comovente momento musical ela canta que apesar de não sentir dor quando toca numa vela e saber que está realmente morta, não consegue evitar a sensação de um coração despedaçado e que de facto ainda lhe restam algumas lágrimas para chorar.
Existe então o outro lado da moeda, de Victor e Victoria, que de relutantes noivos transformam-se em amantes condenados. A fragilidade de Victor, que relembra um pouco a primeira personagem animada de Burton da curta Vincent, é trazida pela voz neurótica de Johnny Depp que mais uma vez comprova que em colaborações com o realizador nada parece falhar. Mas apesar de toda a soturnidade e fatalismo, Corpse Bride é uma obra afirmativa de esperança e liberdade, com momentos de humor tipicamente burtonescos e, claro, deliciosamente macabros. A animação, matéria-prima de sonhos e pesadelos, é verdadeiramente prodigiosa em todos os seus espectros e quase boa demais para ser analisada, recheando o filme de personagens tão encantadoras quanto bizarras. Curiosamente os vivos são os mais tristes, negros e amargurados e a alegria de viver reside no mundo subterrâneo dos mortos, farto de cor, humor e contentamento.
A música de Danny Elfman, que também ela muitas vezes remete a um espirito natalício, é perfeitamente extasiante, cheia de sumptuosas canções da escola The Nightmare Before Christmas, mas desta vez centrando-se mais nas composições orquestrais e melódicas, que atribuem imediatamente uma maior carga dramática ao filme, como no instante em que Emily e Victor se encontram numa peça de piano a quatro mãos. Corpse Bride torna-se quase instantaneamente num dos melhores filmes de Tim Burton, um conto inolvidável de amores perdidos e encontrados e de sombras e melancolias que são atenuadas pela aceitação da vida. Porque apesar de persistentemente recorrer à morte, estas pequenas grandes histórias de Tim Burton, únicas e opulentas, não são lúgubres elegias mas inspiradoras odes à vida.