
"We'll always have Paris"
Paris foi o pano de fundo para uma nova atitude no cinema francês e berço da nouvelle vague, que usava a cidade para contar as suas histórias. Dans Paris é claramente inspirado nesses tempos áureos, renovando uma sensibilidade assente em momentos e experiências. Tudo se passa, aproximadamente, num só dia: a primeira imagem é a de um jovem, Jonathan, acordar numa cama juntamente com outro homem e uma mulher, levantando-se e abrindo a varanda para deixar Paris entrar de rompante. Neste momento surge uma atípica e irónica introdução narrada na primeira pessoa, de alguém que mais tarde sabemos completamente alheio aos acontecimentos que se seguem em flashback, protagonizados pelo outro homem que estava a dormir, o seu irmão Paul, e uma outra mulher. Vemos a relação entre eles deteriorar-se numa magnifica sequência sem delineamento temporal mas que retém toda a problemática da indisponibilidade para amar. Só depois é que acompanhamos o dia destes dois irmãos, anterior ao plano inicial e como um quotidiano que nos auxilia a vislumbrar a essência de cada um, que não poderiam ser mais diferentes: um afunda-se na depressão amorosa, glorificada num breve mas colossal instante em que se entrega às memórias trazidas por uma música antiga de Kim Wilde, preocupando o pai com as suas tendências suicidas; o outro procura auxiliar o irmão mas perde-se numa série de encontros amorosos casuais com raparigas que não conhece. Mais tarde revela, sem ironia, que o fez pelo irmão, como se estivesse a salvá-lo com a injecção de vida feita pela associação. 
É neste estilo de narrativa livre que Dans Paris triunfa com uma enganadora facilidade, culminando num inesquecível momento de cinema, disfarçado de sequência musical, em que Paul telefona para a mulher cujo amor carrega e ambos se confessam cantando “Avant La Haine”, como que a encontrar uma fugaz harmonia no sofrimento dilacerante. A celeridade fortuita da abordagem é mais reveladora que qualquer introspecção morosa e negra, e na leveza com que vemos estas personagens viver como melhor sabem, somos reconfortados por algo familiar em todas elas, mesmo que não exista qualquer redenção ou resolução aparente. A cumplicidade sempre presente entre irmãos é fruto do notável trabalho de dois dos maiores actores franceses da actualidade, Romain Duris e Louis Garrel – que este ano já vimos brilhar fulgurantemente em Les Amants Réguliers, ambos igualmente geniais na forma como compõe as suas personagens e acima de tudo como as fazem respirar e ligar-se. Próximo do final reencontram-se num momento de confissão natural e voltam à infância com uma história que Paul lia a Jonathan enquanto criança. Nestes instantes de identificação, e na forma como tão humanamente são edificados, Christophe Honoré transforma Dans Paris num dos mais belos e desencantados filmes do ano.


Surpreendente, tocante, acima de tudo, extraordináriamente sentido, mesmo
na sua aparente crueza. Lindíssima mostra do que pode ser a cumplicidade e
das inquietações do indivíduo em relação a si mesmo e face aos outros. Um
dos melhores do ano!
Gosto de saber que não estou só e que há quem também se tenha surpreendido
com este belo, frágil filme. A carreira de Honoré não deixava prever nada
de interessante e, no entanto, ei-lo a voltar à casa de partida.