
A rainha Elizabeth sempre foi tida como uma lenda, uma mulher de punho de ferro e com uma força de vontade capaz de derrubar qualquer inimigo tornou a Inglaterra no mais poderoso império do mundo. Em 1998 Shekhar Kapur começou a desvendar a mulher por detrás do mito, dando-nos a conhecer a vida da filha de Henry VIII e da sua segunda e crucificada esposa, Anne Boleyn, nos momentos em que a sua vida corria perigo aquando da eminente morte da sua meia-irmã, devido às suas hereges convicções protestantes. The Golden Age continua naturalmente onde o seu predecessor encerra, depois da tomada espiritual do poder do trono britânico com Elizabeth a auto-intitular-se The Virgin Queen. Vê o seu reinado, sem sucessor, a ser novamente e fortemente ameaçado pela sombra do império católico espanhol, cada vez mais forte e amovivel. Esta sequela tem causado alguma animosidade por parte da crítica devido aos seus excessos. Não há como negar tais flagrantes exuberâncias, por vezes adequadas à grandiloquência dos motivos, mas Kapur tenta manter-se honesto à imagem que invocou de Elizabeth nesta narrativa de ascensão, dúvida e confirmação, ainda que não seja tão eficaz na encenação.
Mas do cerne de tudo isto eleva-se Cate Blanchett, cada vez mais a alcançar os céus da imortalidade e a confirmar-se novamente como a actriz reinante desta era do cinema contemporâneo. Nascida nos palcos australianos, nunca desde que iniciou a sua carreira em cinema deu um passo em falso. Parecia destinada a incarnar esta figura de tão implacável poder mas é na humanidade que traz a todas as suas personagens que reina tão soberana. Quando vimos Elizabeth hesitar, deixar-se levar pelo medo e pelo desgosto damo-nos conta da sua mortalidade e rapidamente nos entregamos à lenda, que surge só depois de a mulher estar perfeitamente desenhada e consolidada em todas as suas fraquezas e virtudes. Aqui ouvimos Blanchett, na sua voz conquistadora e celestial, a proferir uma mão cheia de diálogos que proferidos da boca de outra actriz seriam secos e estagnados. Contudo constroem-se cenas memoráveis de um arrebatamento fulgurante capazes de perdurar muito para além do valor concreto e geral do objecto de cinema em si. É uma interpretação imaculada, envolta por um ténue véu de uma tranquilidade e sabedoria eternas. Há quase dez anos atrás a Academia de Hollywood cometeu a já infame injustiça de entregar o Óscar a outra (fugaz) interpretação. Terão novamente tamanha ousadia?

Eleição do Filme do Ano e Filme de Animação 2007
Esta é capaz de ter sido a primeira crítica positiva (ainda que
maioritariamente centrada na interpretação da Cate) que li ao Filme The
Golden Age :)
Confesso que embora uma sombra do primeiro filme não o achei totalmente
medonho como a maior parte dos críticosnacionais e estrangeiros. A Rainha
Virgem sai da moldura e permite-nos emocionar com a fragilidade humana.
Contudo, acho que Kapur tenta humanizá-la demasiado. Claro que os dados que
tenho são apenas biográficos, e ainda estará para longe a máquina do tempo
que me permitirá bisbilhotar no diário desta Rainha ou mesmo tomar um
cházinho com ela, mas acho que ela era um bocadinho mais cruel...