E estreia finalmente em Portugal a Palma de Ouro da anterior edição Festival de Cannes cujo cartaz para 2006 começará a ser apresentado já dia 17 deste mês. L’ Enfant, que acompanha a história de um jovem casal de “delinquentes” de rua que aquando do nascimento inesperado do filho não conseguem assumir as novas responsabilidades, é já a segunda vitória de Jean-Pierre e Luc Dardenne em Cannes, depois de Rosetta e também da aclamação de La Promesse e Le Fils. Os irmãos belgas voltam a filmar objectos urbanos com um tom quase documental, tal é a forma quase ausente como acompanham a personagem principal, Bruno. 
Ver trailer
RottenTomatoes: 85% (COTC:85%) ; IMDB: 7.7/10
Menino Perdido
Enquadrados – ou mesmo rotulados – como muitos cineastas europeus numa onda neo-realista, os Dardenne evidenciam realidades sociais de uma forma não panfletária e sem nunca optar pela via mais fácil e directa de contar a história. Aliás, não se inibem de perder tempo a criar uma base naturalista onde as personagens possam viver e interagir, completamente alheias a qualquer limitações narrativas que pudessem existir. Vivem no seu próprio mundo e esse mundo é também o nosso. E como tal tudo o que dele advém não é impingido ao espectador como se de uma obra de ficção se tratasse.
Começamos por conhecer Sonia a sair do hospital e tentando desesperadamente encontrar Bruno, que não a visitou no hospital. Acaba por o encontrar a meio de um golpe – com os seus “colegas”, dois rapazes de 14 anos - que tem de ser interrompido. Denota-se desde logo o calor do amor juvenil entre ambos, ainda adolescentes na forma como se encontram um no outro, mas se Sonia se prepara para assumir o papel de mãe, Bruno tem até dificuldades em olhar Jimmy, o filho, fixamente, um poço de responsabilidades para o qual não se encontra minimamente preparado. Com a desculpa que um dia poderão ter outro, acaba, depois de um dia em família, por vender o filho para adopção que deixa Sonia de tal forma transtornada que tem de ser imediatamente hospitalizada.
Na realidade, a criança mencionada no título do filme não é de facto o bébé mas sim o pai. Bruno é um caso exemplar do síndroma Peter Pan, alguém que se recusa a crescer, aqui amplificado por uma adolescência delinquente na qual aprendeu a sobreviver sem necessitar tornar-se num membro produtivo da sociedade. Não chega a ser um verdadeiro criminoso, porque apesar da idade as suas ambições continuam as mesmas. Quando chega Jimmy a pressão torna-se demasiado sufocante e há que encontrar de novo uma forma de respirar. Só que no decurso destes dias, Bruno, numa magnifica e contida interpretação de Jérémie Renier (o rapaz de La Promesse), vai finalmente de encontro à maturação, algo que sempre evitou, mas que agora chega abruptamente de um modo irremediável. E até fatalmente tarde, quando os erros que cometeu começam a conglomerar-se numa avalanche, à qual não pode escapar como antigamente.
Mais uma obra que ao nunca querer tomar partidos ou apontar o que é correcto, deixa um sentimento ambivalente de culpa e personalização dos acontecimentos. L’Enfant é um comovente e cruel conto do real, onde a ficção nunca o é.

