
Farväl
Infelizmente já só tive a oportunidade de visitar o indieLisboa – cada vez com mais aderência/um sinal de mudança? – no último dia para visionar um dos filmes premiados, Falkenberg Farewell, do estreante cineasta sueco Jesper Ganslandt. A premissa é simples: um conjunto de amigos reúnem-se novamente na cidade onde cresceram num Verão igual a tantos outros. Todos na casa dos vinte, são uma pequena amostragem de uma geração com dificuldades particulares. Sem objectivos de vida, rumo ou sequer um vislumbre de edificação de um futuro, estes rapazes vivem o próximo dia como viveram o anterior e como irão viver o próximo. Existem perspectivas de planeamento, nomeadamente deixar para trás a cidade que lhes é tão familiar e recomeçar de novo numa metrópole cheia de possibilidades, mas são apenas uma forma rotineira de negar a imobilidade, este impedimento que contamina os seus dias, uma incapacidade indecifrável de acção consequente. Mesmo os momentos de mais excelso contentamento são envenenados pela dolorosa percepção da sua fugacidade, imediatamente translocados para a nostalgia da infância, acreditando que essa plenitude nunca terá ecos. E é na melancolia silenciosa desta geração que reside a imensa força dramática do filme, sem narrativa delineada, apostando apenas no naturalismo das vivências quotidianas do grupo. Surgem-se comparações ao estilo mais recente de Gus Van Sant e apesar de tal não ser inusitado, a realidade é que existe algo de singular na forma como Ganslandt encena esta história de desapontamento e desespero. As personagens são de uma densidade apenas alcançável por não existir uma interpretação e assumirem o papel deles próprios, cientes deste barranco que os deixa reféns. A solução não parece ter uma resolução imediata. Se esta visão pode ajudar a encontrar as origens crípticas deste mal generalizado também é verdade que apenas na reflexão individual esse olhar ganha forma. No cerne deste taciturno caos não parece existir nada para além das sombras que corrompem o derradeiro sopro de esperança.


Texto muito apelativo, tendo em vista a promoção e o visionamento do filme
em causa. Só é pena a utilização (incorrecta) do termo "aderência"
(indicado para questões de pneus, entre outras) em vez do uso (correcto) do
termo "adesão"...
Penso que não seja um "erro" propício a se tornar num objecto de pena. Até
porque a utilização do termo não é incorrecta, já que aderência, segundo o
dicionário da Língua Portuguesa, não é um substantivo apenas referente à
capacidade de adesão entre duas superfícies. De qualquer maneira esse
reparo é bem vindo, já que não possuo nenhum editor pessoal neste blog,
ainda que desnecessário visto que não tenho qualquer pretensão de ter
textos aprovados pela Edite Estrela.
s. f.,
ligação de superfícies;
acto de aderir;
qualidade do que é aderente
v. int.,
estar unido, ligado, por aderência;
fig.,
aprovar, dar adesão a>>>
Subscrevo tudo o que dizes acerca do filme, excepto a última frase.
Continuo a achar (ou querer achar) que o final é uma forte luz de redenção,
esperança e força. Pelo menos prefiro vê-lo assim, para não me pesar mais
ainda.
Um filme assustadoramente retrato da realidade de tantos jovens
(talvez de todos nós, em maior ou menor grau). Extremamente perturbador,
tocante e inesquecível.
É difícil sair da sala sem um enorme peso na alma.
Um dos filmes que infelizmente perdi no IndieLisboa... :|