A América vive nos dias de hoje a cultura do medo. Medo do terrorismo e do radicalismo islâmico, levando muitos cidadãos a serem olhados com alguma não invocada desconfiança, discretamente promovida pelo sector conservador que neste momento governa o país, e que tenta assim criar uma falsa ilusão de segurança nos cidadãos, entregando-lhes o claro perfil do inimigo, para que todos o possam reconhecer. O paralelismo ao McCarthismo acaba por ressurgir de uma forma nada forçada. Nos anos 50 o Senador Joseph McCarthy levava a cabo uma verdadeira e impiedosa caça às bruxas, através de um sub-comité de investigação do Senado, a todos aqueles que tivessem tido ligações alguma vez com o Partido Comunista ou qualquer uma das suas organizações subalternas. Em sessões públicas, McCarthy acusava – quase sempre sem provas legitimas - e arruinava as vidas de centenas de americanos, cuja honra e patriotismo eram renegados face ao rótulo de traidores dos Estados Unidos da América. E aqueles que não estavam com ele, estavam irremediavelmente contra ele.
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RottenTomatoes: 83% (COTC:74%) ; IMDB: 7.9/10
Proclamação de liberdade
"As a nation we have come into our full inheritance at a tender age. We proclaim ourselves as indeed we are, the defenders of freedom where ever it still exists in the world. But we cannot defend freedom abroad by deserting it at home. The actions of the Junior Senator from Wisconsin have caused alarm and dismay amonst our allies abroad and given considerable comfert to our enemies. And who's fault is that? Not really his, he didn't create this situation of fear he merely exploited it, and rather successfully. Cassus was right, the fault dear Brutus is not in our stars, but in ourselves. Good night, and good luck."
Mas, em 1954 um jornalista da CBS, Edward G. Murrow, e a sua equipa concretizaram algo de revolucionário e corajoso: ao contrário de todos os outros meios jornalísticos, também eles com receio de segregação, o programa “See It Now”, expunha a verdade da mentira do comité McCarthy, numa série de emissões que acabaram por comprometer as acções do senador. Ed Murrow, veterano nas noticias e pioneiro no jornalismo televisivo, é hoje quase um mito, memória de um tempo em que a televisão descobria o seu potencial. E ao ver Good Night, and Good Luck, que retrata esta atitude de não conformação e de busca da verdade, é impossível não nos depararmos com a realidade de um potencial dolorosamente desperdiçado. Hoje em dia o jornalismo parece ser pouco mais do que o bombardeamento de noticiação superficial e aleatória, desprovida de qualquer verdadeiro sentido informativo e a televisão nada mais que um ávido emissor de detritos disfarçados de entretenimento.
E em Edward G. Murrow vimos alguém que não só desejava a mudança mas que também teve a coragem de promovê-la. David Strathairn não se limita a retratar Murrow, a sua sobriedade e virtuosismo liberal, e na que é uma das mais colossais e inebriantes interpretações dos últimos tempos, tem a capacidade de tornar um só homem num símbolo incontestável de liberdade. Muito graças também à realização frugal e sincera de Clooney, Strathairn consegue, nos muitos discursos de Murrow no seu programa, com a sua voz penetrante e ressonante, causar instantâneos arrepios na espinha tal é o poder natural que exala da figura heróica que representa.
George Clooney parece ter aprendido muito desde Confessions of a Dangerous Mind. Num projecto que lhe é evidentemente pessoal – o seu pai era pivot de telejornal e ele próprio é dos mais activos liberais em Hollywood – Clooney tem a mestria não só de reunir um magnifico elenco, que conta com Frank Langella, Jeff Daniels, Robert Downey Jr, Patricia Clarkson, Ray Wise e também com ele enquanto produtor de Murrow, mas de sobretudo criar uma obra de inegável valor político e social. Jamais panfletário, Clooney parece ter como principal objectivo advogar a verdade, chegando inclusivé a recusar-se a ter um actor a interpretar o Senador McCarthy, limitando-se a mostrar muitas das imagens reais capturadas das sessões do comité e da própria aparição no programa de Murrow que, com tentativas rebuscadas de intimidar e comprometer a integridade do jornalista, apressou o seu declínio.
O preto e branco, mais de uma simples mas reveladora forma estilística, parece criar ele próprio um veículo para Clooney apresentar esta história, construindo uma ambiência muito especial, pautada pelo jazz e fumo quase etéreo exalado por Strathairn, componente primordial de uma estética que remonta ao cinema nóir. No entanto, Good Night and Good Luck, frase com que terminava todas as suas emissões, é um importante, inspirador e também revigorante exemplo do novo cinema independente de “intervenção”, de uma naturalidade reminescente da década de 70 e que parece emanar um sentimento exaltado mas genuíno de liberdade e da importância do uso da mesma para evocar uma tão necessária mudança.
Boa noite e boa sorte.


Excelente análise, Nuno :)! É de facto um excelente filme e no entanto
parece-me que está a passar algo despercebido em Portugal.
Teve bastante destaque nos suplementos de arte de final de semana do
Público e do Diário de Notícias mas penso que a distribuição do filme está
a ser muito mal feita. Devia estar em muito mais salas do que está. Acho
que tanto o Good Night and Good Luck quanto o Capote, só pelo facto de
serem grandes nomeados aos Óscares - logo num ano em que todos os filmes
(tirando um) são magnificos - despertariam maior atenção no público logo
poderiam estar mais bem representados nas salas. Mas parece que não...
infelizmente
O meu favorito entre os nomeados ao Oscar máximo deste ano (que acabou por
ficar a zero). Pequeno Grande filme, sobre um tema universal e histórico,
contemplado por excelentes interpretações e uma bela realização. Muito bom
:-)