
Os moldes da típica comédia americana andam a sofrer fortes mudanças nos últimos anos. A velha fórmula estagnada começa a dar sinais de asfixia por parte do público, que começa a deixar-se seduzir por algo diferente. Um dos grandes precursores do movimento tem por nome Judd Apatow, um escritor de comédia que se formou em televisão e que tem lentamente deixado a sua marca em cinema. O primeiro impacto deu-se com a surpresa chamada 40 Year-Old Virgin com Steve Carrell e este ano teve um Verão de sonho com Superbad, do qual é produtor, e Knocked Up a arrebatarem as bilheteiras norte-americanas. O segredo parece simples: criar bons gags, um processo que parece cada vez mais menosprezado pelas restantes comédias de Hollywood, que insistem no mesmo tipo de piada e punchline pouco natural e já a tresandar a mofo. É só olhar para a vulgaridade de encenação de The Heartbreak Kid dos Irmãos Farrelly, um objecto hediondo do mais detestável mau gosto sem conseguir atingir um único momento de comédia.
Muitos condenam Apatow pela vulgaridade das palavras, mas os cenários quotidianos onde as enquadra não só as torna verdadeiras, como também acaba por criar alguma proximidade ao espectador pela forma como debate tão abertamente assuntos ainda tabus, sem nunca ser minimamente gratuito. É aqui que entra o mais brilhante elemento dos filmes assinados por Apatow, mais concretamente deste Knocked Up: o argumento. A premissa parece ser só “mais uma” mas a maneira como o realizador/argumentista constrói a história com uma estrutura dramática convincente enquanto delinea e define as suas personagens através do marcante diálogo é quase inédita nos dias de hoje, aparte de Alexander Payne e Charlie Kaufman no lado independente. Existe uma preocupação extrema não só com o impacto das palavras como também em dar personalidade aos humanos que as regurgitam. Até a própria música não é só uma miscelânea dos temas mais "quentes" do momento mas deixada ao cuidado de dois nomes sonantes da folk americana, Loudon Wainwright III (pai de Rufus e actor no filme) e Joe Henry.
Um dos protagonistas, Seth Rogen, é um parceiro criminoso regular de Apatow e tem aqui a sua grande explosão enquanto comediante e actor, ultrapassando o seu alter-ego policial do Verão em Superbad, um filme que apesar de falhado possui grandes e memoráveis momentos, muitos deles protagonizados por Jonah Hill, um dos amigos de Rogen neste filme. A diferença é que em Knocked Up existe uma atracção dramática que, na sua simplicidade, nos conquista, especialmente na forma como vai construindo a improvável e não planeada relação de Rogen e da belíssima Katherine Heigl, que engravida depois de uma muito "bebida" one-night-stand. Heigl acerta também em cheio na caracterização da sua personagem e juntos tornam o filme ainda mais memorável. Actualmente é raro que uma comédia nos apaixone e nos desfaça em lágrimas de riso ao mesmo tempo. Esta é uma delas.

Concordo inteiramente com a crítica, também gostei bastante e foi um filme
que me surpreendeu pela positiva.