
Sinais...
Existem por vezes, apenas por vezes, momentos em que o cinema nos acorda de forma inesperada, em que a beleza de uma história e da forma como ela é contada nos deixa plenamente arrebatados e com a sensação, ilógica ou não, de que nos engrandecemos de forma transcendental. Lady in the Water não seria de todo um desses filmes. Pelo menos a julgar pela recepção que teve não só da crítica e do público americano como também alguma animosidade aleatoriamente espalhada deste lado do oceano. Pretencioso, desprovido de sentido, rídiculo, falhado foram alguns dos adjectivos mais “amáveis” utilizados para descrever o filme. A ironia, e sem querer ser vidente e/ou pedante, é que daqui a alguns ou muitos anos esta será uma obra que não deixará tanta margem para divisões. Mas antes disso falta contar a história...
Era uma vez um homem cuja função era tratar da manutenção de um pequeno condomínio numa qualquer pequena ou grande cidade americana. Vivia os seus dias a ouvir as queixas dos variados e tão mundanamente bizarros inquilinos e a tentar concertar todos os tipos de problemas que surgiam, desprovido de uma vida pessoal e escondendo uma bagagem sentimental tremenda. Uma noite repara em movimentos estranhos na piscina e ao investigar depara-se com uma jovem rapariga, pálida e misteriosa, que mais tarde descobre tratar-se de uma criatura de um mundo “imaginário”.
Primeiro de tudo, a forma como se funde o mundo real com este lado mitológico que habita sob a superfície é um ode a M. Night Shyamalan, cada vez mais um poeta rejeitado pelo seu próprio tempo, e às suas capacidades filmicas. Com uma certeza cada ver mais forte surge uma assinatura - aqui auxiliada pela sumptuosa e faustosa fotografia de Christopher Doyle e das mais tocantes e belas das partituras de James Newton Howard - uma forma de distinção de todos os outros objectos de cinema, principalmente neste filme, um testemunho pessoal e honesto, como se estivesse a canalizar nesta história tudo aquilo que o constitui enquanto ser humano. É que Shyamalan é acima de tudo, um contador de histórias e esta parece ser um primor não só de escrita como da sua transposição para o ecrã. 
Mergulhamos de imediato no quotidiano de Cleveland Heep e sem nos apercebermos somos sugados para este conto de embalar como se de crianças de 5 anos nos tratássemos. E ao baixarmos todas as defesas somos envolvidos numa história tão transcendente que é quase um acto de fé. Sim, é verdade que Lady in the Water possui elementos do fantástico, não fosse a co-protagonista uma narfa marinha, uma espécie de ninfa interpretada por uma extasiante Bryce Dallas Howard, etérea e com o peso de dois mundos nas costas, que terá de recrutar a ajuda de guardiões e curandeiros para se proteger de um monstro sanguinário que a atacará no mais breve momento de descuido e também para encontrar o seu “caminho” para “casa”. Esta mitologia é muito rica e densa mas não é de todo invasiva. Aliás, apenas sabemos o necessário e tudo permanece envolto no mesmo véu de mistério e deslumbramento que tinha à partida. Mas graças à intervenção de Shyamalan ele torna-se tão palpável quanto o mundo real e estes fundem-se de modo surpreendente.
Ele envolve personagens humanas, pessoas normais, comuns, meros habitantes de um vulgar prédio mas únicas, especiais e deixa que a Humanidade nelas viva para tentar salvar esta estranha criatura e, desta forma, a elas mesmas. Todos têm um papel crucial em tudo o que se passa, à medida que as ligações, mesmo aquelas que se quebram, se fortificam para revelar uma essência superior. E ninguém é mais humano que Cleveland, uma interpretação monumental de Paul Giammatti, que tão facilmente nos leva à gargalhada mais genuína como nos arrebata com a mais pura das confissões. No final de contas, este filme de fantasia acaba por ser mais sobre o reconhecimento da Humanidade e da sua unicidade em todos aqueles que nos rodeiam e que dada a inerente desatenção dos tempos que vivemos, tão facilmente ignoramos e simplificamos. Uma experiência transformadora... como às vezes o cinema consegue ser.


Ainda não tive oportunidade de o ver. Mas talvez o veja numa sala próxima.
Quanto à banda-sonora de James Newton Howard pelo que já ouvi parece ser
excelente.
Escolhes sempre a música acertada. =)
Cumprimentos cinéfilos.
Duvido que seja tão bom quanto o Snakes on a Plane
Duvido que seja tão bom quanto o Snakes on a Plane
Hey! Não quero ser má, nem nada que se pareça, e podes até recusar este
comentário, visto que eu não sabia como contactar contigo sem ser por esta
forma... Era só para avisar que agora (espero que o problema não seja do
meu PC idiota!=P), a homepage do teu blog está muito larga. Não sei muito
bem como explicar, mas a modos que, para se conseguir ler os teus textos e
ver a barra lateral onde estão os links para todas as tuas críticas, é
preciso andar 'quilómetros' para o lado, o que dificulta bastante a
navegabilidade e a própria essência do teu texto se vai perdendo enquanto
se anda para trás e para diante...=/ Dantes não era assim, não sei porque
mudou... Seja como for, era só para deixar o meu aviso registado, pronto,
já que o teu blog de cinema continua a ser o meu preferido. :)
olá nirkynuts! obrigado pelo aviso. já és a segunda pessoa que me diz isso
por isso creio que será mesmo algum problema da blog-city. Deve ter a ver
com a resolução que se tem no ecrã. Eu se calhar não noto porque tenho-a
muito alta. Mas vou investigar e agradeço teres dito isso, assim sei que
está alguma coisa mal e tentarei resolver. Cumprimentos
Penso que consegui resolver o problema. Está tudo ok agora? :)
Já está óptimo!=) Obrigada por teres sido tão atencioso!;)
Parabéns pela excelente descrição. Muito boa escolha de fotografias do
filme!
Os micros suspensos nada têm a ver com a realização, mas sim com a
projecção. Se se viram microfones nessa sessão, foi porque provavelmente o
projeccionista estava a dormir.
Adorei o filme! Se esquecermos a surrealidade e entrarmos no mundo dos
contos de embalar, é simplesmente lindo! M. Night Shyamalan volta a subir
na minha consideração. =P
Essa é que é a grande questão:
"entrarmos no mundo dos contos de embalar"
Eu já saí de lá há muito. Nem as cantigas de embalar dos governos me
convencem...
Saudações do Brasil a todos!
Primeiro: Não escrevo errado. Esse é o meu português :)
Sobre o filme, apenas uma palavra: Belíssimo!
Fotografías extraordinárias de um filme de outro mundo. Obrigado "Night".
E "crítica" muito bem escrita (ontem já estava cansado, não deu para ler :)
)
Esta maravilhosa metáfora mostra-nos dolorosamente que somente saberemos
quem somos quando descobrirmos nossas sombras e a lavarmos nas aguas de
nosso entendimento.
Amazing and fantastic film, from the category MUST SEE EVERYONE!
signature: “I like to drink coffee and smoking cigarettes before bed. I
dream faster.” (c) Steven Wright: Coffee and cigarettes