Search

 

Calendar

««Aug 2008»»
SMTWTFS
      12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930
31

Cinemusic


 

A TOCAR:

"Ceremony" 
New Order
Marie Antoinette

 

Hit Counter

Total: 1,709,916
since: 9 Nov 2003

Mailing List

Blog Status

  • 4 yrs 38 wks 6 days old
  • Updated: 1 Aug 2008
  • 638 entries
  • 1,306 comments

Filmes de 2005

LastFM

MARIE ANTOINETTE (2006) de Sofia Coppola

posted Saturday, 21 October 2006




Lux Regina


Sofia Coppola, filha de uma dinastia de nobreza de Hollywood, cedo soube se desprender da sombra do seu pai e seguir as suas próprias ambições artísticas. Com a estreia na realização e escrita de Virgin Suicides e a desencantada obra-prima contemporânea de nome Lost in Translation, Sofia surpreendeu com a sua sensibilidade muito individual, onde se redescobria o poder das imagens e da aliança com a música – algo que se tem vindo a tornar numa das suas maiores e distinguíveis marcas – caminhando lado a lado com Paul Thomas Anderson, Spike Jonze, Wes Anderson (entre outros) numa nova vaga de cinema de autor norte-americano, todos eles procurando incessantemente uma identidade. Mas há algo que distingue Coppola, e, até ao momento, a temática dos seus filmes, todos eles retratando de alguma forma a angústia e inadequação modernas, a busca de uma maturação e de um rumo que nunca chegam a surgir.



E é nesta maldição tão contemporânea que novamente se insere em Marie Antoinette, a princesa austríaca que se tornou rainha de França ainda adolescente, e, segundo dita a História, levou um país à ruína e catalisou uma revolução. Fascinada por uma biografia de Anthonia Fraser, que retratava de uma forma pouco habitual a jovem regente, Coppola viu nesta infame figura histórica um real veículo para caracterizar o seu universo. Tão (ou tão pouco) especial quanto Lux ou Charlotte, Marie Antoinette é uma adolescente que tem a sua frágil formação intelectual num ambiente hostil: a corte francesa. Habituada a uma austeridade mais casual e abnegada da Aústria, a colisão cultural com Versailles é quase devastadora no que diz respeito ao seu património sentimental e personalidade em formação. Com apenas quinze anos, vê-se confrontada com uma escolha: ou deixa-se despedaçar pela corte viciosa e pela distância que a separa do seu novo marido ou terá que adaptar-se rapidamente a algo que desconhece e receia. Este desespero é magnificamente invocado por Kirsten Dunst, que volta a encontrar em Sofia a subtileza e contenção que fazem desta interpretação não só uma das mais arrebatadoras a tomar o ecrã este ano, como no seu desencanto universal, se torna eterna.



Com o peso de uma união política aos ombros, Antoinette decide cumprir o seu papel e render-se inocentemente, numa candura infantil, à farta banalidade de Versailles, um reino de cinismo e frieza indomáveis, onde condessas passam as suas horas em fofocas causticas, recorrentemente acerca da incapacidade da dauphine em produzir um herdeiro para a coroa. Incapaz de lhes fazer frente e frustrada com a ausência de intimidade com Louis-Auguste, Marie Antoinette rebela-se não se rebelando e conformando-se a dias de inúteis e dispendiosos prazeres. Coppola compõe este retrato com Barry Lyndon de um lado e a sua própria visão de Versailles nos olhos de Antoinette no outro, criando em redor da personagem um universo que nada mais tem que artificialismo e excesso barrocos. E na extravagância rócócó do filme reside uma das suas singularidades, recheada por um detalhe e igual descomedimento na produção artística: o facto de que por debaixo da superfície dos faustosos e coloridos vestidos, imponentes corredores e divisões palacianas e da sua emanante frivolidade, nada mais existe.



Assim Coppola, num estrondoso passo em frente de depuração de realização e da própria forma como auxilia tão inspiradamente a construção narrativa com a estética pop de música pós-punk e avant-garde dos anos 80 que se enquadra inacreditavelmente nos meandros do séc. XVIII – uma escolha tão arrebatadora que merece ser analisada com mais detalhe, vê Antoinette ver o seu mundo. Esta corte e seus falsos costumes é tudo aquilo que (re)conhece, absolutamente alheia aos problemas escalantes do país que deveria governar, como se tratasse de um cosmos distante no qual não tivesse qualquer possibilidade de intervenção. Apenas no final, quando os halls de Versailles se esvaziam com a iminente revolução e tudo o que embeleza as suas paredes desvanece numa escuridão devoradora (um brilhante trabalho paradigmático de fotografia de Lance Accord), nos é permitido ver toda a Humanidade de Antoinette sobressair ao aperceber-se pela primeira vez da sua própria mortalidade, pouco depois de ver perecer a sua mãe e o seu terceiro filho. Aqui, pela primeira vez os sentimentos são verdadeiramente operáticos, dilacerantes e cruéis, como se apenas nos últimos dias de vida ela tivesse realmente encontrado o seu lugar, atribuindo-lhe assim uma imensa tragicidade. E em Marie Antoinette, Coppola cria um arquétipo de toda uma geração do século XXI, minada pela sua própria condição e resignada a uma existência de infindável e dolorosa demanda pelo seu papel no mundo que o circunda.








1. Paula left...
Sunday, 22 October 2006 12:01 am

Um salto de um draft impreciso para um produto simultaneamente denso, sofisticado e depurado. Pois... eu pertenço à microscópica minoria que considera Lost In Translation um filme mega-hiper-sobrevalorizado. Agora devo ficar a pertencer também à minoria que considera Marie Antoinette um filme infra-subvalorizado :p

Ainda estou é a tentar perceber como é muitos dos que consideram LIT a pérola da década vêem Marie Antoinette como um enorme bocejo.

Beijocas Nuno, o teu blog continua a ser uma referência.


2. Duarte Oliveira left...
Tuesday, 24 October 2006 10:44 am

Admito que as minhas expectativas para o filme eram algo reduzidas mas este surpreendeu-me pela positiva. Really loved it. She can do no wrong.


3. Nuno Gonçalves left...
Tuesday, 24 October 2006 4:26 pm :: http://mulholland-drive.blog-city.com/

Paula, Sempre reviste o Lost in Translation? Se sim... bem, é uma pena visto que é já um dos grandes filmes de sempre. hehehe. Mas fico contente por teres adorado o Antoinette.

Duarte, realmente "she can do no wrong". Pelo menos espero que assim seja. Três filmes, três obras magnificas. Cada vez se torna mais dificil não considerá-la uma das grandes futuras cineastas norte-americanas. Mesmo os cépticos.


4. H (Play It Again) left...
Wednesday, 1 November 2006 8:31 pm :: http://playthatmovieagain.blogspot.com

Caro Nuno, Passo várias vezes pelo teu espaço que constitui um dos blogs de cinema que mais admiro. Desde a apresentação dos textos à escolha das fotos e da música, à grande qualidade da escrita, devo dar-te os parabéns! Escolhi comentar o teu post do «Marie Antoinette» porque também gostei do filme dessa maneira forte, sorvendo o que a Sofia conta de forma magnífica num filme que não é de todo histórico mas sim uma metáfora para coisas bem mais intemporais ou, como afirmas no teu final, muito do nosso tempo. A visão dela continua a deixar-me assombrada. Uma cineasta que se afirma como verdadeira "autora" a cada filme. Excelente crítica. Continua com o bom trabalho!

H.