
Lux Regina
Sofia Coppola, filha de uma dinastia de nobreza de Hollywood, cedo soube se desprender da sombra do seu pai e seguir as suas próprias ambições artísticas. Com a estreia na realização e escrita de Virgin Suicides e a desencantada obra-prima contemporânea de nome Lost in Translation, Sofia surpreendeu com a sua sensibilidade muito individual, onde se redescobria o poder das imagens e da aliança com a música – algo que se tem vindo a tornar numa das suas maiores e distinguíveis marcas – caminhando lado a lado com Paul Thomas Anderson, Spike Jonze, Wes Anderson (entre outros) numa nova vaga de cinema de autor norte-americano, todos eles procurando incessantemente uma identidade. Mas há algo que distingue Coppola, e, até ao momento, a temática dos seus filmes, todos eles retratando de alguma forma a angústia e inadequação modernas, a busca de uma maturação e de um rumo que nunca chegam a surgir.

E é nesta maldição tão contemporânea que novamente se insere em Marie Antoinette, a princesa austríaca que se tornou rainha de França ainda adolescente, e, segundo dita a História, levou um país à ruína e catalisou uma revolução. Fascinada por uma biografia de Anthonia Fraser, que retratava de uma forma pouco habitual a jovem regente, Coppola viu nesta infame figura histórica um real veículo para caracterizar o seu universo. Tão (ou tão pouco) especial quanto Lux ou Charlotte, Marie Antoinette é uma adolescente que tem a sua frágil formação intelectual num ambiente hostil: a corte francesa. Habituada a uma austeridade mais casual e abnegada da Aústria, a colisão cultural com Versailles é quase devastadora no que diz respeito ao seu património sentimental e personalidade em formação. Com apenas quinze anos, vê-se confrontada com uma escolha: ou deixa-se despedaçar pela corte viciosa e pela distância que a separa do seu novo marido ou terá que adaptar-se rapidamente a algo que desconhece e receia. Este desespero é magnificamente invocado por Kirsten Dunst, que volta a encontrar em Sofia a subtileza e contenção que fazem desta interpretação não só uma das mais arrebatadoras a tomar o ecrã este ano, como no seu desencanto universal, se torna eterna.

Com o peso de uma união política aos ombros, Antoinette decide cumprir o seu papel e render-se inocentemente, numa candura infantil, à farta banalidade de Versailles, um reino de cinismo e frieza indomáveis, onde condessas passam as suas horas em fofocas causticas, recorrentemente acerca da incapacidade da dauphine em produzir um herdeiro para a coroa. Incapaz de lhes fazer frente e frustrada com a ausência de intimidade com Louis-Auguste, Marie Antoinette rebela-se não se rebelando e conformando-se a dias de inúteis e dispendiosos prazeres. Coppola compõe este retrato com Barry Lyndon de um lado e a sua própria visão de Versailles nos olhos de Antoinette no outro, criando em redor da personagem um universo que nada mais tem que artificialismo e excesso barrocos. E na extravagância rócócó do filme reside uma das suas singularidades, recheada por um detalhe e igual descomedimento na produção artística: o facto de que por debaixo da superfície dos faustosos e coloridos vestidos, imponentes corredores e divisões palacianas e da sua emanante frivolidade, nada mais existe.

Assim Coppola, num estrondoso passo em frente de depuração de realização e da própria forma como auxilia tão inspiradamente a construção narrativa com a estética pop de música pós-punk e avant-garde dos anos 80 que se enquadra inacreditavelmente nos meandros do séc. XVIII – uma escolha tão arrebatadora que merece ser analisada com mais detalhe, vê Antoinette ver o seu mundo. Esta corte e seus falsos costumes é tudo aquilo que (re)conhece, absolutamente alheia aos problemas escalantes do país que deveria governar, como se tratasse de um cosmos distante no qual não tivesse qualquer possibilidade de intervenção. Apenas no final, quando os halls de Versailles se esvaziam com a iminente revolução e tudo o que embeleza as suas paredes desvanece numa escuridão devoradora (um brilhante trabalho paradigmático de fotografia de Lance Accord), nos é permitido ver toda a Humanidade de Antoinette sobressair ao aperceber-se pela primeira vez da sua própria mortalidade, pouco depois de ver perecer a sua mãe e o seu terceiro filho. Aqui, pela primeira vez os sentimentos são verdadeiramente operáticos, dilacerantes e cruéis, como se apenas nos últimos dias de vida ela tivesse realmente encontrado o seu lugar, atribuindo-lhe assim uma imensa tragicidade. E em Marie Antoinette, Coppola cria um arquétipo de toda uma geração do século XXI, minada pela sua própria condição e resignada a uma existência de infindável e dolorosa demanda pelo seu papel no mundo que o circunda.

