O evangelho de Maria Madalena, descoberto em meados do século XX, foi desprezado e ocultado pela Igreja, receosa de que os novos ensinamentos viessem a arrebatar todo o perfil dogmático da religião católica. Continua a ser como que um tabu explorar este novo olhar sobre a vida de Jesus e a sua morte, e é daqui que Abel Ferrara parte com Mary. A premissa é assente nas filmagens de uma adaptação deste evangelho, da polémica que se gerou em torno do realizador e a transformação real da actriz principal, que inspirada pelo poder divino de Maria Madalena. Tudo isto retratado através de um apresentador de um programa que disseca os dogmas religiosos de todos os géneros, enquanto vemos a sua vida pessoa deteriorar-se com a sua mulher a preparar-se para ter o primeiro filho do casal. Se Mary tem um prelúdio promissor, num olhar mais clínico e realista sob a paixão de Cristo encarnada na mulher que depois da sua morte foi ostracizada pelo teor das visões que testemunhou, acaba por se perder exactamente num misto de inconsequência conclusiva e por cair no mesmo utilitarismo espiritual do qual se queria afastar. É no entanto uma obra de grande interesse e que se eleva aquando das reflexões actuais dos ensinamentos de Maria Madalena na pele de Juliette Binoche. Lamentável que essa história seja tão superficialmente abordada para dar lugar a um testamento de fé tão pouco genuíno e maniqueísta.
Evangelho (novamente) perdido
