MATCH POINT (2005) de Woody Allen
posted Friday, 20 January 2006

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RottenTomatoes: 77% (COTC:91%) ; IMDB: 8.0/10
Perfidia
" The innocent are sometimes slain to make way for grander schemes "
Woody Allen é dos mais prolíficos génios do cinema norte-americano e todos os anos vemos uma nova obra ser lançada com a sua assinatura. Contudo os últimos filmes que realizou e escreveu começavam a ficar muito aquém das outras preciosidades do seu currículo e depois de trivialidades como Anything Else, Hollywood Ending e Melinda e Melinda, parecia que Allen tinha esgotado a singular fascinação de outrora. Mas eis que chega Match Point, um drama perverso que acompanha a incursão de um ex-jogador de ténis na classe alta, quando conhece e acaba por desposar a filha de um dos mais influentes homens da cidade de Londres. Mas é na namorada do seu cunhado, uma aspirante actriz americana, que a sua tentação reside e a relação tempestuosa e ardente que se forma entre os dois ameaça arruinar-lhe o futuro e retirar-lhe as certezas de um certo nível de vida a que ele se acostumou.
Este pequeno grande ensaio sobre paixão e obsessão é acutilante na sua abordagem e espelha uma faceta de Woody Allen que normalmente não lhe é associada e reminescente de outras incursões num género dramático mais sério que o autor explorou nos anos 80. Match Point é, tal como se explicita na narração inicial, um jogo de tentação, impulsos e poder, que como acontece numa partida de ténis, construído de momentos em que a bola toca na rede e não se sabe se a ultrapassa e ganha ou é barrada e se perde. E esta obra, facilmente a mais penetrante de Allen em dez anos, é prodigiosa na forma quase bárbara e impiedosa com que transforma um aparente receptáculo de valores e moral num ser corrompido que se deixa abalroar pela sua libido e os seus instintos primordiais.
E tal assume uma estilização demarcadamente trágica, acentuada pelas árias de ópera que pontuam todo o filme e os seus momentos fulcrais. Jonathan Rhys-Meyers, o protagonista que nas suas falhas tremendas mostra não ser mais nem menos que humano e por tal é impossível condená-lo uma só vez pelas suas acções, por mais pérfidas que sejam, é ele próprio um amante de ópera, algo que acaba por lhe valer a entrada num círculo de riquezas e se de início tal aparenta pretensão ou oportunismo, é algo que lhe é destinado. A tragicidade esmagadora que o afoga foi infligida inconscientemente pelo próprio e nada lhe pode trazer redenção.
Acaba por ser concretizado por momentos que albergam mudanças calamitosas e o mais desastroso é o primeiro encontro com Scarlett Johansson, uma femme-fatale sedutora e irresistível que parece incorporar todos os elementos indomáveis que devastaram vidas inteiras. Mas com a subtileza e vitalidade que só Johansson consegue transparecer, a “matadora” vai-se tornando lentamente mais real e a fantasia que o apoderou inicialmente desvanece-se no ar e nada resta senão alguém que o poderá deitar tudo a perder.
É neste quase hediondo ardil que Woody Allen se eleva e eviscera todos os podres da condição humana num dos mais preceptivos e astuciosos jogos de identidade vistos nos últimos tempos, e apesar de não ter aqueles apontamentos mais óbvios de comédia é imerso no sarcasmo, ironia e inteligência que o definem. Troca Manhattan por Londres e, apesar da mudança clara de tom como se as histórias das cidades modificassem elas mesmas o rumo da narrativa, transpõe-na para o ecrã com um rigor e teatralidade inéditas. Scoop, o seu próximo filme e desta vez uma comédia, também com Scarlett Johansson, irá também ter Londres como cenário. A mudança revela-se mais que profícua.
