
As Horas
O diário é um dos maiores confidentes (e na maioria dos casos, único) do ser humano que o decide escrever, não para se lembrar das ninharias do quotidiano e dos assuntos mais importantes que o deliciam e atormentam, mas como testemunho de vida, uma lembrança “inegável” da sua existência. E na confiança que esta relação se manifesta, esconde também segredos que nunca teriam um lugar para além da mente. Em Notes on a Scandal violamos a privacidade de um destes diários, de uma professora de ensino secundário perto da reforma que se entusiasma com a chegada de uma nova e inexperiente professora e vê nela um motivo de obsessão. Esta obsessão intensifica-se quando descobre que a sua nova amiga mantém um caso com um aluno de 15 anos, algo que vira a seu favor, prometendo não revelar a sua indiscrição em troco da sua “eterna devoção”. Do argumentista de Closer e do realizador de Iris, Notes on a Scandal trata-se de um interessante e perturbador ensaio sobre a solidão, magnificamente encarnada na distorcida personagem de Judi Dench, uma interpretação sufocante digna de constar numa lista das melhores da carreira desta Dame, que, equivocada pela natureza da sua amizade, muito assente numa mentira, se deixa levar pelo seu próprio espírito manipulador e deturpado, capaz de condenar a sua “amiga” pela mínima e manifesta falta de atenção. Do outro lado existe Cate Blanchett... e que dizer de Cate Blanchett, a não ser que, a par só de Nicole Kidman, se trata da mais corajosa, talentosa e desnorteante actriz dos nossos tempos. Aqui tem a ousadia de atribuir uma dimensão humana a um glorificado”monstro”, que no vazio inesperado da sua existência cometeu o erro de deixar entrar um rasgo de vida, real e perigosa. Com duas interpretações tão gloriosas quanto estas, Notes on a Scandal nunca poderia deixar de ser um bom filme, ainda que acabe, no final, por assassinar a subtileza e contenção que tão bem mantém ao longo do filme e pautado por uma brilhante partitura de Phillip Glass, reminiscente do seu trabalho em The Hours, em prol de um final mais pleno. Contudo o sentimento de solidão transformada em doença está bem patente nesta história e não deixa de ser alarmante nos apercebermos do potencial humano para a sua própria erradicação.
