Voyeur
Peeping Tom de Michael Powell, obra-irmã do Psycho de Hitchcock (lançados no mesmo ano), é um olhar perturbador sobre o cinema, numa vertente extrema de invasão da vida de um ser humano. Ou neste caso da sua morte, já que o protagonista, aspirante a realizador, tem um projecto pessoal terrivelmente doentio: o de captar o último olhar de terror em jovens mulheres, enquanto as mata. Contado na primeira pessoa, do ponto de vista do assassino, é, entre outras coisas, um perturbador olhar sobre o recalcamento Freudiano de infância espelhado na vida adulta. Mark, cuja infância foi passada a ceder aos estudos violadores do seu pai sobre o medo, não consegue afastar a psicose de algo que lhe foi impresso desde as mais primárias memórias. Nem mesmo quando conhece Helen, uma jovem escritora e vizinha que parece querer compreendê-lo, se consegue afastar de si mesmo e da sua obsessão. A lente de Powell é simultaneamente usada para um perturbador estudo psicanalítico como também serve de espelho de si própria, numa metáfora exacerbada de uma interpretação cáustica do cinema, um conjunto de imagens usurpadoras e voyeuristas. Isso toma aqui a proporção de uma doença que corrompe a instável mente de Mark, aparentemente apenas um homem reservado e dedicado ao seu trabalho. Curiosamente a única pessoa capaz de observar a sua natureza é alguém que não consegue ver. Ele, pelo contrário, observa e espia tudo excepto a si próprio e a indomável tragédia do medo que urge recriar nas suas “obras”.




Um dos meus filme favoritos, e dos mais inteligentes ensaios sobre o cinema
- ou, como diz Martin Scorsese, "Peeping Tom" como a perfeita metáfora
sobre o estado de espírito de qualquer realizador enquanto se encontra a
trabalhar num filme. I love it.