
A China contemporânea é a de um país em profunda mudança e em choque consigo mesmo. O modernismo parece disposto a arrebatar a tradição, mas esta parece não querer rendição. Em Still Life, Jia Zhang-Ke oferece-nos uma nova visão do seu país natal que parece estar a transformar-se em algo radicalmente diferente e a perder a sua identidade. Aqui o símbolo do confronto é a antiga cidade de Fengjie, prestes a ser irradicada do mapa e submersa para a construção de uma imponente obra arquitectónica: uma imensa barragem no vale das Três Gargantas. Esta povoação torna-se então o ponto de encontro de estranhos que vão para lá procurar um lugar nos trabalhos de demolição. Mas os protagonistas do filme, um homem que vai em busca da sua mulher e da filha e uma mulher do seu marido, ambos provenientes de uma província rural da China. Apesar da similitude das suas peregrinações, eles nunca se cruzam. Mas ambos representam o elemento familiar, espelhado no carácter doméstico dos capítulos, de uma cidade quase alienígena, onde até existe lugar para discos voadores em todo o seu surrealismo... totalmente eviscerada e já pertencente ao mundo dos mortos. A paisagem desoladora do cimento e vigas expostas contrasta com a honestidade emocional das personagens, que acabam por ser destituídas pelos fantasmas dos edifícios, atrozes transfiguradores da viagem de purificação em que inconscientemente enveredaram. Existe um sentimento quase romântico de morte na maneira como Jia Zhang-Ke filma os cenários devastados da cidade em ruínas, como um prelúdio obrigatório para o desenvolvimento, mas um prelúdio que ceifa mais perdas dos que prémios. Em Shijie (O Mundo), o realizador falhou em transmitir no final a mensagem a que se propôs, a de uma China que tenta forçosamente agarrar um lugar no mundo do séc. XXI ignorando a riqueza da sua própria cultura. Aqui fá-lo com a contenção arrebatada de um lamento e de um derradeiro sussurro de socorro.
