
Um Conto de Duas Cidades
Sugiro que tiremos já algo do caminho antes de começar o comentário propriamente dito: The Departed é uma incontestável obra-prima do cinema contemporâneo, um clássico instantâneo do género policial/gangster e um melhores e mais audaciosos filmes de um dos mestres do cinema americano, Martin Scorsese. Depois de uma época de reconstrução histórica que teve os seus momentos altos (The Aviator) e menos altos (Gangs of New York), Scorsese regressa às origens, às ruas.

Mas desta vez a cidade que temos em fundo não é Nova Iorque mas Boston. Isto transfigura repentinamente aquele retrato mais “familiar” da máfia nova-iorquina e dos seus caricatos afiliados. Até porque aqui a herança cultural debruça-se sobre os descendentes irlandeses, filhos puros de Boston e New England. E o seu espólio criminal não é menos interessante, pelo contrário, dando logo de inicio uma dinâmica completamente diferente ao que estávamos habituados em Mean Streets, Casino ou Goodfellas, distinta também pela fotografia muito térrea e penetrante de Michael Ballhaus. Mas existe também desta vez, uma abordagem algo inédita em Scorsese, o outro lado da moeda e a cara da força policial da cidade.

Uma inteligente adaptação de um policial de Hong Kong, Infernal Affairs, mostra-nos a vida paralela de dois destes filhos de Boston, Colin Sullivan e William Costigan. O primeiro é agora um dos novos valores da policia estadual, um estandarte de perfeição e virtude, encarregado de desmantelar a rede organizada de Frank Costello, um senhor do crime que mais se assemelha a um “rei” na região, com o twist dele próprio ser alguém criado por Costello desde criança para se infiltrar na Polícia de Boston. Costigan, é proveniente também da biografia criminal da cidade mas devido ao seu pai cedo se quis desligar do passado e lutou para conseguir um lugar nas forças do “bem”, apenas para descobrir que, devido ao seu historial, terá de se infiltrar no grupo do circulo restrito de capatazes de Costello.

O argumento é sublime e um engodo brilhante de reviravoltas no enredo carregadas de suspense, mas é o ritmo imprimido por Scorsese que o torna tão fulgurante. Não existe um único momento desperdiçado e a aliança de quase trinta anos com a editora de montagem Thelma Schoonmaker parece mais forte e vigorosa que nunca, e até um pouco reminiscente de Goodfellas, carregada de uma adrenalina e rapidez de movimento características do realizador e espantosa na forma como vai construindo em paralelismo simultâneo a ascensão e/ou queda das suas personagens, nomeadamente dos dois protagonistas.

E é neste duo que reside a grande agilidade temática do filme, a da busca de uma identidade ocultada, perdida ou simplesmente nunca encontrada. Existe em ambos a tragicidade individual de um não reconhecimento, o da procura, até então infrutífera, de algo verdadeiramente deles e não de produtos do ambiente em que cresceram e aos quais se conformaram (não é por acaso que uma das canções-chave do filme é “Comfortably Numb” dos Pink Floyd). Matt Damon é impressionante na forma como mascara este atordoamento numa postura exterior quase perfeita de agente policial exemplar quando tudo o que vive é uma mentira e nada mais que isso. Leonardo DiCaprio, esse, não consegue esconder a tortura de levar uma existência contra a qual sempre lutou e assistimos à sua degradação gradual, até o levar a um impiedoso desespero, numa das mais arrebatadoras e dolorosamente realistas composições dramáticas da sua carreira e mais uma interpretação clássica sob a escolta de Scorsese, digna novamente de todos os prémios (já têm na calha uma biografia do presidente americano Theodore Roosevelt).

Falando em prémios, não há como pensar noutro candidato ao Óscar de Melhor Actor Secundário para além de Jack Nicholson. Quando foi anunciada a noticia do seu casting do filme, surgiu a sensação que a parceira com Scorsese era tão perfeita que parecia quase impossível nunca se ter concretizado. E ainda mais do que seria de esperar, Nicholson é colossal e delicioso na sua interpretação de um demónio incarnado - um dos momentos de antologia do filme tem o actor numa atitude diabólica a espalhar cocaína no corpo de uma das suas acompanhantes ordenando à outra que a inale, tudo pautado por uma desconcertante ária de ópera - trazendo aquele toque de génio tão particular que só ele detém, impregnando-a também de um humor muito pessoal, sendo difícil delimitar onde Nicholson acaba e Costello começa. Mas há que não esquecer o restante elenco secundário, brilhante na sua coesão e diversidade, do policia em constante conflito de Mark Whalberg, ao demasiado confiante chefe de Departamento Alec Baldwin contrastando com a calma mais virtuosa de Martin Sheen e terminando com uma interpretação paradoxal e dividida de Vera Farmiga, uma actriz que mais cedo que tarde estará a dar cartas em Hollywood.

Martin Scorsese no entanto deverá perder a estatueta de Melhor Realizador pela sétima vez. Porquê? The Departed é demasiado violento, demasiado visceral, demasiado honesto... demasiado bom. Não só vemos Scorsese no domínio total da sua arte como assistimos também a uma espécie de ressureição como se aqui pudesse residir o inicio de toda uma nova mitologia. Mas mesmo que tal não se concretize temos em The Departed uma ousadia e um arrojo que já não víamos em Scorsese desde Goodfellas e até de Taxi Driver, na forma como vai fazendo emergir as personagens e psicologia na sua própria sensibilidade enquanto cineasta, desprovida de morosidade ou falsas direcções e embebida numa virtuosidade frenética plena de humor, pautada por uma exemplar selecção de musica rock clássica e contemporânea bem como alguns clássicos do consciente americano. E é aqui que a genialidade de Scorsese reside. Na forma inadulterada como vemos a América, nas suas mais contraditórias e fascinantes reflexões, através dos seus olhos. E que visão!

