Sonho Americano
Nos últimos anos o talento de Robert De Niro, um dos actores mais fulcrais e marcantes do cinema contemporâneo, tem-se vindo a extinguir numa série de papéis inconsequentes em filmes normalmente medíocres. Passaram mais de 10 anos desde Heat de Michael Mann e quase o mesmo tempo desde Jackie Brown. Chega agora o segundo filme da sua autoria enquanto realizador depois de A Bronx Tale de 1993. Aqui retrata os primeiros passos da Central Intelligence Agency pela vida de um homem que tudo fez para salvaguardar a integridade do seu país, incluindo transfigurar a sua própria personalidade, desde cedo envolto num mundo de secretismo e trazido para os serviços secretos americanos por via de uma sociedade secreta de aristocratas, saídos de universidades reputadas e filhos de exemplares patriotas. A surpresa de The Good Shepherd não se traduz unicamente na intrigante, inteligente e complexa história que conta mas sobretudo na singularidade injectada por De Niro no filme, uma obra pouco convencional e que não se compromete aos padrões estandardizados do thriller. Aliás, possui um ritmo próprio e vagaroso, como que a permitir uma maior absorção da densidade que se vê no ecrã, sem nunca se tornar minimamente entediante, vazio ou menos interessante. E no centro da acção está um idealista silencioso que vê lentamente a sua alma ser sugada pelas suas próprias convicções, incapaz de alguma vez exprimir aquilo que sente a quem mais devia, apenas preocupado com o serviço incondicional ao país que prometeu proteger. Uma brilhante interpretação de Matt Damon, talvez um dos actores mais subvalorizados da nova geração de Hollywood, secundado por um elenco brilhante desde John Hurt, Alec Baldwin, John Turturro, o próprio Robert De Niro, Joe Pesci, Michael Gambon a Angelina Jolie, a esposa sacrificada a criar tudo aquilo que deixou para trás, incluindo o próprio filho. The Good Shepherd, quase ignorado pelos americanos, é um filme que certamente merecerá redescobertas e revelações na rede de mistérios e vidas desperdiçadas que foram a génese de uma das forças vigentes dos nosso mundo. De De Niro, agora, esperam-se novos anos de glória e fulgor profissional... por detrás das câmaras. 


