Tocando o vazio
Nos passados anos as surpresas na atribuição dos Óscares para interpretações principais têm sido nulas. Regularmente já sabemos de antemão quem irá levar a estatueta para casa, exclusivamente porque todos os indicadores anteriores à cerimónia parecem galardoar sempre uma única pessoa. Este ano as certezas recaem em Helen Mirren, por The Queen, e Forrest Whitaker. Este último tem arrebatado todas as premiações com a sua interpretação em The Last King of Scotland. Este filme de Kevin MacDonald, autor do “documentário” de recriação Touching the Void, acompanha um médico
recém-licenciado que decide libertar-se da influência paternal no seu país natal, a Escócia, e viajar para o Uganda para trabalho humanitário. Mas a nação africana encontra-se em alvoroço devido a um golpe de estado que colocou no poder o inicialmente afável general Idi Amin, de quem ele se torna médico particular. O que de inicio parecia ser uma grande oportunidade transforma-se num pesadelo do qual não consegue despertar. Uma premissa interessante com base em factos reais; e resume-se a isso. A execução de MacDonald e dos argumentistas é básica, redutora e chega a reforçar demasiados estereótipos. As personagens secundárias são acessórias e isentas de responsabilidade narrativa, como é o caso de uma ínfima participação especial da resplandecente Gillian Anderson, que lentamente volta às lides cinematográficas depois de alguns anos nos palcos londrinos, cuja personagem, tal como quase todas as outras, parece desaparecer sem qualquer tipo de explicação. Quanto à interpretação de Whitaker é realmente “maior que a vida”, plena de um fulgor quase aterrador, infelizmente travada por um argumento vazio que nada contribui para o retrato do actor a não ser a previsível transformação num monstro demoníaco. Whitaker talvez mereça a atenção, mas The Last King of Scotland definitivamente não é detentor de tais honras. 
Eu fico me perguntando se não foi exatamente isso que o diretor Kevin
Macdonald queria: fazer um filme que realçasse um personagem. Eu vejo O
Último Rei da Escócia como o veículo para um grande ator desfilar o seu
talento. Macdonald não quis fazer um filme sobre a ditadura na África e sim
um filme sobre um ditador (um homem que ele considera um monstro) e ao
mesmo tempo um filme sobre um jovem em busca de uma aventura para sua vida
(no caso, o Dr. Nicholas Garrigan). Gostei bastante do filme, apesar de
muito gente nos blogs ter achado o ator melhor do que o filme.