Terrence Malick possui uma aura lendária em sua volta, com a capacidade de gravitar e encarnar toda a transformação que o cinema permite, mesmo quando até agora só tinha realizado três filmes em três décadas. Enquanto visionário, as suas obras tenderão sempre a causar alguma divisão e este seu novo poema cinematográfico terá sido o que opiniões mais radicais colheu. Como sempre Malick protege o seu trabalho de tal modo que nunca se sente satisfeito com ele, levando-o a adiar várias vezes a estreia para dar os últimos retoques na incessante montagem. Talvez acredite também ele que um filme nunca está plenamente acabado, apenas deixa-se de trabalhar nele. 
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RottenTomatoes: 58% (COTC:51%) ; IMDB: 7.3/10
A Este do Paraíso
"I will find joy in all I see"
The New World é no seu cerne uma re-interpretação de um mito já conhecido de todos, o do descobrimentos das Américas, mais propriamente da Virginia, e a inesperada história de amor que se travou entre John Smith e uma jovem índia de nome Matoaka mas chamada de Pocahontas pela liberdade do seu espírito. Malick, apesar de por vezes, e mesmo no início, seguir Smith – possivelmente o melhor trabalho de Colin Farrell até à data que se deverá repetir no próximo filme do realizador - e outras personagens, é sempre em Pocahontas e em Q’Orianka Kilcher que ele se foca. Através dos seus olhos descobre-se o amor e a dor que mais tarde dele advém, e como tudo aquilo que se conhecia anteriormente desvanece para nunca mais voltar. Acaba por se tornar numa metáfora da própria invasão inglesa da América, que durante séculos arruinou culturas inteiras e lhes destruiu aquilo que lhes era mais sagrado, a Terra, cuja repercussões ainda hoje se sentem visceralmente no âmago das pequenas comunidades espalhadas pelos Estados Unidos.
Pocahontas simboliza também a pureza primordial, a inocência e os laços à Terra e à Natureza, na forma como se vive o dia a dia, sem as preocupações e “doenças” que minavam os conquistadores, sedentos de poder e prosperidade. Mas o que a tornava tão divina foi também o que a condenou, ao deixar-se tão candidamente desligar do seu povo e apaixonar-se por um prisioneiro. Durante uns tempos, breves mas plenos, vivem uma felicidade idílica que parecia não poder terminar. Mas o mundo rapidamente os alcançou e os conflitos escalaram com a chegada de novos navios, o paraíso perdeu-se para sempre.
Nos olhos de Q’Orianka sentimos uma das mais trágicas histórias que o mundo já conheceu e Malick filma-a como se tratasse da última esperança da Humanidade em si própria, no deleite pagão como abraça a terra, o vento e o sol e como essa essência a vai lentamente abandonando até chegar um ponto em que mais nada resta senão a aceitação daquilo faz dela humana. Só assim consegue reencontrar a paz que perdeu e que só volta a alcançar no último fôlego. Esta actriz debutante com quinze anos, de origens peruanas, é possivelmente dos rostos mais genuínos que o cinema já vislumbrou, feito transcendente pela forma como Terrence Malick conta este conto, isento de pretensões e sempre verdadeiro no modo como deixa as vozes, e os corpos, respirar.
E as imagens criadas são também das mais arrebatadoras que ele já filmou, auxiliado pela fotografia natural, e desprovida de qualquer fonte de iluminação artificial, de Emmanuel Lubezki. Apesar de todas as opiniões divergentes é uma das mais honestos e comoventes obras que se poderão ver este ano, e Terrence Malick novamente prova que a sua arte não tem limites, físicos ou de qualquer outra origem, no que toca à reavaliação da própria condição humana.


Completamente de acordo. "The New World" emana a beleza idílica que Malick
imprime nos seus filmes, edificando de forma audiovisual uma poesia
arrebatadoramente emocional. O filme não acaba quando visionamos os
créditos finais... pulsa uma energia que nos acompanha durante dias e
demanda que o espectador ornamente a sua conclusão. Sendo Malick um filho
do sonho hippie de 60, é imensamente gratificante (enquanto espectador)
como permanece fiel aos seus princípios autorais.